Informar para transformar: a inquietação de dois jornalistas da favela

Jovens que utilizam a comunicação como ferramenta de transformação na comunidade


Por Gilberto Luiz

Como surgem as inquetaões? O que são? Segundo o Dicionário Aurélio, inquietação é: “o estado daquilo pelo qual está inquieto; alvo de agitação; agitado”. O que muita gente talvez não saiba é como esse desassossego pode mudar uma realidade. Familiar? Sim. Comunitária? Também. Partindo disto, Martihene keila, 31, e Gilberto Luiz, 21, jornalistas oriundos da comunidade do Córrego do Sargento, localizada no Bairro da Linha do Tiro, Zona Norte do Recife - PE, utilizaram a comunicação para transformar o local onde residem.


Os moradores do local - sargentinos, como gostam de ser chamados -, são pessoas que possuem laços fortes de identidade entre si. Orgulhosos do lugar onde moram, sempre estão criando iniciativas para a melhoria de todos. Observando essas ações, que ainda eram autônomas e desligadas umas das outras, os dois estudantes tiveram a ideia de unir os projetos já existentes em um só coletivo.


Ao ingressarem no curso de jornalismo da faculdade, começaram a entender os valores-notícia e a importância da proximidade da notícia com o público. Inquietaram-se com o produto-notícia apresentado pelos veículos da grande massa, ao se referir às classes minoritárias, manchando a imagem da comunidade, noticiando apenas questões de violência urbana e tráfico de drogas, descartando as práticas de desenvolvimento presentes no local, em prol da igualdade social. Diante deste cenário, se empenharam em articular meios para quebrar o estereótipo pregado pelas empresas de comunicação, utilizando as ferramentas e técnicas absorvidas no ensino superior.


Inicialmente, os dois estudantes queriam desenvolver um podcast para retratar a temática e pudesse contrariar o conceito impregnado pelos veículos da grande massa. Porém, a partir de uma das disciplinas da graduação, resolveram criar uma organização o qual pudesse noticiar as ações de desenvolvimento no local, contribuindo com o engajamento comunitário, reforçando as ideias de identidade racial e utilizando a educomunicação para construir uma estrutura organizacional, onde todos os moradores do lugar estivessem cientes dos seus direitos civis.


“O Coletivo Sargento Perifa surgiu no dia 28 de maio de 2020. Mas, se contarmos, há mais de dois anos tínhamos esse pensamento: reunir todos os líderes de projetos autônomos já existentes no Córrego do Sargento e criar um veículo de comunicação para noticiar as ações desenvolvidas por esses movimentos internos da periferia”, relatou Gilberto.


Neste século, muitas manifestações surgiram com esse mesmo pensamento do Sargento Perifa e, atualmente, é possível encontrar grupos com atividades similares, promovendo ações e dando visibilidade à favela.


“Estabelecer uma comunicação própria na comunidade é um desejo alimentado há muito tempo pelos movimentos sociais. Assim como canais de televisão e meios de informação, a comunicação comunitária pode-se afirmar como veículo transmissor de informações da comunidade, divulgando seus interesses e inquietações comuns e suas necessidades mais urgentes”, afirmou Cecilia Peruzzo, doutora em Ciências da Comunicação e referência na academia quando o assunto é comunicação popular.


Martihene e Gilberto são amigos de infância. Conheceram-se na Igreja Assembleia de Deus, situada dentro da comunidade. Cresceram juntos. Sempre foram tidos como “jovens prodígios” por todos os moradores. Jovens inquietos, que não se acomodavam. Buscavam alternativas para superar as dificuldades, individuais e coletivas.


“O objetivo maior do jornalismo é informar para transformar. Se ele não transforma, se ele não muda, isso não é jornalismo”, Martihene.

E eles sabiam disso desde o início. Essa transformação é gerada a partir de diferentes paradigmas, se revelando nas teorias modernas, da dependência e do desenvolvimento participativo. Sem dúvidas, os primeiros passos para o crescimento de uma comunidade, passa por uma comunicação em que permite às pessoas do próprio local, se apropriem das técnicas de produção comunicacional. Os dois sabiam disso, mas, para tal, era necessário convocar os líderes para produzir e divulgar seus próprios interesses e inquietações. Antes, eram apenas dois inquietos. Hoje, são mais de 60. Não precisam mais da mídia convencional a fim de publicar suas ações. E isso é de suma importância, ao fazermos um resgate histórico e observarmos a dependência que a sociedade tinha sobre veículos convencionais para ver divulgadas as suas temáticas.


Por isso, todo o processo de produção dos integrantes tem como objetivo o engajamento da periferia, mobilizando-se de maneira que reforce os conceitos e ideais de comunicação, contribuindo no alcance dos objetivos do meio. Exemplos, como: resgate da cidadania, promoção da cultura, direitos básicos e outras necessidades as quais fazem parte dos desassossegos do coletivo.


Hoje, o Sargento Perifa possui 12 projetos que, de alguma forma, beneficiam a periferia do Córrego do Sargento. São eles: Sargento Saúde, idealizado pela Enfermeira Joselma Carvalho, e a nutricionista Pánmela Patricia; Nutris do Perifa, idealizado por Pánmela Patrícia; Pensa Perifa, idealizado pelo estudante de Psicologia, Cláudio José; Sargentinho F.C, idealizado pelo morador Deilson José; Sargentinho na Folia, idealizado por moradores; Cheios de Direito, idealizado pelo estudante de Direito, Matheus Navarro; Educa Sargento, idealizado pela professora de Letras, Fátima Lima; Dois Dedos e te Conto, idealizado pela estudante de História da UFPE, Maria Luiza; Sargento em Movimento, idealizado pelo professor de educação física, Talles Paulino; Riselda Amorim, idealizado pelo atleta de Jiu-jitsu, Luan Amorim; Muda Sargento, idealizado pela designer de interiores, Tatiana Rocha; e Sargento Literário, idealizado pela estudante de designer de interiores, Raquel Lima. Os seus principais canais de comunicação são o Instagram, Facebook e site: www.coletivosargentoperifa.com.