Parceria: Coletivos se unem para falar de violência policial na comunidade do Tururu em Paulista

O projeto Cheios de Direito explicou aos moradores como se defender ou denunciar a violência da polícia na comunidade

Foto: Divulgação/Força Tururu

Por: Cris Mendonça e Martihene Oliveira


No último sábado (12), o Coletivo Sargento Perifa esteve presente na comunidade do Tururu, localizada no Janga, Paulista, para falar de violência policial através do Projeto Cheios de Direito.


A ação fez parte da parceria do Perifa com o Coletivo Força Tururu, que faz comunicação comunitária há mais de 10 anos com os moradores da comunidade através de fanzines, ensaios fotográficos, produção audiovisual, rodas de conversa, dentre outras mobilizações. Uma das ações mais marcantes para o Tururu foi a do tema “Uma muda para cada vida”, que espalhou mais de 200 mudas de plantas por todo o território em homenagem e protesto pelas vidas de moradores assassinados.


Na ação deste sábado, os dois coletivos se uniram para falar dos abusos de poder dos agentes policiais com moradores da periferia como forma de reverberar o racismo. Um documentário produzido pelo Coletivo de Mídia Independente Marco Zero Conteúdo, em parceria com o Gajop - Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares, foi apresentado em praça pública aos moradores. O filme “Quando a Morte Veste Farda”, lançado no Recife em agosto de 2022, trata da história de famílias que choram a morte de seus filhos assassinados pela polícia no Recife e Região Metropolitana.


O projeto Cheios de Direito, representado pelo advogado João Matheus do Monte, conversou com a comunidade sobre o racismo policial e suas nuances, explicando a importância de se estar atento aos abusos de autoridade da polícia. Para ele, o fato de ser pobre e periférico já coloca o morador como alvo: “nosso objetivo é levar conhecimento jurídico para pessoas que não teriam acesso facilmente a esse direito e é por isso que estamos aqui. Quando falamos de abordagem da polícia nas favelas e analisamos sobre o quanto demora o judiciário brasileiro para punir os policiais de má conduta, eu como advogado tenho vergonha de falar. O que parece é que existe um sistema para proteger policiais corruptos e assassinos e existe uma política de extermínio da população negra”.


O público contou com cerca de 30 pessoas espalhadas pela calçada para assistir ao filme projetado na parede externa de uma residência. Houve distribuição de pipoca e também de sopa, que foi propícia para o momento, já que a exibição aconteceu entre a trégua de um forte chuva. Além disso, os integrantes do Tururu fizeram sorteio de cestas básicas em vários momentos.

Foto: Divulgação/Força Tururu

Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas - Provita


Para quem não sabe, o governo disponibiliza para pessoas em situação de ameaça por causa de denúncias que as mesmas fizeram, o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas - PROVITA, dessa forma, vítimas e testemunhas podem ser amparadas, contudo, mesmo com o PROVITA em ação desde 1999, os dados do Monitor de Violência do G1, somente no ano passado, registraram 6,1 mil mortes por policias estaduais em todo o Brasil. É fato que nem todas estas mortes aconteceram após a denúncia, contudo, o medo instaurado nas comunidades periféricas sobre as consequências de uma denúncia de violência policial é real e presente.


Ana Paula, moradora do bairro, comentou sobre uma situação que seu neto e filha passaram: “Leandra vendia lanche para pagar a faculdade e os policiais já chegaram com agressividade, revistando ela que estava acompanhada de seu filho na época com 3 anos de idade. Levaram o dinheiro que ela ganhou no dia sem mais nem menos e a liberaram. Foi uma humilhação terrível, nós quisemos botar na justiça, mas um advogado nos disse que não valeria à pena porque iríamos ser caçadas onde nós estivéssemos”, afirmou.


A agressividade e violência da polícia que termina em morte na periferia afeta principalmente jovens negros. Segundo o estudo da Rede de Observatórios da Segurança, entre 2019 e 2020, por exemplo, 97% dos mortos pela polícia em Pernambuco eram negros, na maioria, filhos e filhas de mulheres e homens da favela que morrem pelas mãos da polícia. Pernambuco ocupa o sétimo lugar no ranking dos estados que mais matam por violência policial. Em Recife, Salvador e Fortaleza, por exemplo, todas as vítimas da polícia eram negras.