Profissional usa as técnicas que aprendeu na profissão e na faculdade para ajudar moradores do Córrego do Sargento e, com a chegada de uma ONG oriunda da comunidade, cria um projeto de saúde


Por Gilberto Luiz

Existem alguns exemplos de superação que privilegiam apenas a si próprio. Isto é fato e não anulam o reconhecimento. Outros até servem de incentivo para aqueles pelos quais identificam-se com a situação. Porém, existem casos onde o personagem utiliza a sua mudança de vida para transformar a realidade das pessoas. Joselma Carvalho, 50, enfermeira, é oriunda da periferia do Córrego do Sargento, no bairro da Linha do Tiro, situada na Zona Norte do Recife-PE. Filha de Teresinha, técnica de enfermagem, perdeu o pai com apenas 3 anos. Ainda com essa idade, teve que morar com a avó e tia, pois a sua mãe com 14 filhos não tinha condições de criar todos. Mas isso não fez com que ela perdesse a proximidade com a sua genitora.


Cresceu sendo movida por pautas sociais e sempre foi referência onde mora. Em 1994, recebeu uma oportunidade para trabalhar como auxiliar de enfermagem em um dos hospitais da cidade, e enxergou isso como oportunidade para preencher uma das lacunas da comunidade: a falta de assistência médica que os moradores não tinham por parte do Estado. É preciso deixar claro que a saúde é um direito de todos, previsto na Constituição Federal como obrigação do Estado garantir políticas públicas que visem a manutenção do bem-estar físico da sociedade. Mas, infelizmente, a teoria não reflete a prática e a problemática existe. Quem dera seguíssemos o conceito do iluminismo onde entendemos que a sociedade só progride quando um se mobiliza com o problema do outro.


“Quem é do Córrego sofre para ter acesso ao único posto de saúde em que podem ser atendidos. Esse centro atende todos os bairros adjacentes, totalizando mais de 20 comunidades. Eles não tinham uma orientação por perto, tanto para medicamentos, quanto para atendimentos básicos (aferir pressão, glicose, orientações nutricionais etc)”, afirmou Joselma.

Atendimento domiciliar gratuito


Estar à disposição para atender mais de 400 moradores não é tarefa fácil e nem de uma única pessoa. Joselma sabia disso, mas a chama de superação dela ardeu e, com isso, ela quis alcançar a todos, sem exceção. Ainda estava na faculdade quando começou a prestar os primeiros atendimentos. Ao ser consultada por um dos moradores, resolveu ajudá-lo. Depois disso, se surgisse qualquer necessidade física de algum morador, era para chamar imediatamente a “mamãe Jó” - como a gostam de chamar.


Hoje, ela é considerada a médica da comunidade. Joselma não se limita a serviços. Em quaisquer situação estará lá, disposta a ajudar. E sem cobrar nada pela atividade. Tudo sempre foi feito de forma voluntária. Sem nenhum retorno financeiro. O lucro é a gratidão. “É um sentimento que não tem preço. Não tem valor. Quando vemos muita gente com condições de fazer o bem e não faz, eu me sinto honrada em poder ajudar aqueles que precisam. Mesmo com tão pouco. Mesmo sem receber nenhuma ajuda por parte do governo. Tudo é feito com muita gratidão e amor”, acrescentou.

Chegada do Coletivo Sargento Perifa


Com o tempo, as solicitações pela “curandeira” do Córrego foram aumentando. Joselma tinha que se desdobrar entre rotinas de trabalho e atendimentos domiciliares. Nem sempre havia equipamentos suficientes para atender. Às vezes, retirava do seu próprio bolso e comprava os materiais necessários para prestar o auxílio. Contudo, dentre as mais diversas iniciativas promovidas na periferia, dois estudantes de jornalismo resolveram unir todos os projetos autônomos da comunidade e criar um coletivo que pudesse noticiar as ações desses movimentos. Um alívio para Joselma, que passou de simples atendimentos à criação de um projeto de Saúde.


Hoje, o projeto conta, em geral, com ações de nutrição, psicologia e, claro, enfermagem. “Com a chegada do Coletivo, demos um salto, nos permitindo ver e mostrar para a comunidade que há alguém que se importa com eles. O Sargento Perifa veio como uma luva. Eu sozinha não tinha ajuda de ninguém. Agora com o coletivo temos o grupo da saúde. Somos muito ativos em promover ações. Tudo isso deu uma engrenada na comunidade”, relatou.


Ainda existem muitos paradigmas a serem quebrados. Mas saber que há protagonismo e disseminação de ações pensadas pelos próprios moradores periféricos é fundamental, pois são essas pessoas que conhecem as verdadeiras demandas, necessidades e prioridades das comunidades. E, diante das suas inquietações, propagam o desenvolvimento social realizado nesta área habitada.


Por fim, Joselma ressaltou a importância de ter um centro de saúde mais próximo da localidade e expressou seu desejo de poder ser enfermeira desse posto. “O meu maior sonho é ser enfermeira de um posto de saúde que fosse construído perto daqui. Já faço atendimento domiciliar há mais de 10 anos. Continuaria trabalhando como enfermeira e atendendo os mesmos moradores que sempre prestei auxílio. Só que agora com todo o tempo disponível para eles”, finalizou.